Já tinha tirado umas sardinhas do congelador com ideias de usar no fim de semana. Com a impossibilidade de ir fazer a noite, e um fim de semana ocupado e com mar de levante, pela manhã decido logo de que ia fazer uma perninha de tarde. Gosto mais de pescar á noite, mas antes de dia que não pescar. A seguir ao almoço, pego no material e sigo para um dos locais habituais. Sozinho, calmante e sem paragens. Em tempo de pandemia há que as evitar se possível.
Chegado ao estacionamento a primeira coisa a fazer é cheirar aquele ar salino á medida que avalio o local cá do alto. Estava a entrar na última hora da enchente, manso com pouca vaga e uma boa cor a fugir para o azulado. Céu bastante nublado sem vento. Temperatura agradável, nada de muito quente. Cá do alto consigo localizar um pequeno fundão, algo longe para os lançamentos, mas já tinha o meu ponto de referência entre aquelas 2 lajes. Era ali que iria montar a "tenda".
Material às costas e toca a fazer a descida. Cá em baixo confirmo o meu receio. Muita areia nova. Algo frequente nestas praias, que mudam constantemente e de forma considerável de um dia para o outro. Não se avizinhava tarefa fácil encontrar o local certo para colocar a pesca. A ausência de fundões e coroas não era bom presságio. Só faltava haver o mais temível dos inimigos do pescador, aquele que só damos por ele depois de estarmos no pesqueiro, com fé de uma boa jornada em que todas as previsões se mostram alinhadas para isso: o limo. Felizmente não estava lá.
Lá me fixei entre os pontos que tinha identificado mas o local a apontar era às cegas. Iscadas generosas de lombos de sardinha, e segue-se o ritual da espera. Sentar na areia, esticar as pernas, o som das ondas a entrar pelo tímpano dentro como que uma sinfonia que nos aquece a alma e derrete o coração. A brisa salina a percorrer a face aquecida pelos raios de sol que iam espreitando por entre as nuvens. Dali a pouco já suo com calor. Vim preparado para um tempo mais fresco, e afinal dou de caras com as nuvens a serem lentamente empurradas por um vento que não se sente cá em baixo, e o sol a mostrar a sua força sem interrupções que lhe desgastam no seu percurso até á areia. Como um dos cinzentão se tornou num comum dia de verão, não fosse estarmos na primavera, e a água estar a uma temperatura espectacular para uns mergulhos. Mas vim pescar.
Na escoa já de si forte, ainda tinha um declive acentuado, o que ia tornar interessante se se desse o caso de ferrar um bom exemplar. Sem toques, ia vendo regularmente o isco, alterando comprimentos e diâmetros. Não gosto da pesca estática. Se não há actividade ou o peixe não está lá, ou estou a fazer algo mal. Esta eu posso fazer algo para mudar. No virar da maré começo a ver pequenas picadas na ponteira. Aguardo aquele momento em que a ponteira verga e começa o combate. Não acontece! O isco vem ratado, será miudeza que lá anda. Troco para um anzol maior, iscada maior e bota para dentro.
O tempo foi passando, nada se passava, vou dar uma caminhada pelo areal, não para muito longe e sempre levando o olho á cana. Entre plásticos e lixo que retiro da beira mar, encontro um pião novinho.
Volto á cana, recolho para verificar o isco e ali se mantém. Já nem ratado vem. Continuo ali por pouco mais de 1 hora, até ir embora.
Entre a última da vazante e as 2 primeiras da enchente nada se passou. Nada que não é nada.
Passou-se uma bela tarde em sintonia com a natureza, apreciei algo do mais belo que se pode apreciar e limpei a cabeça. Se havia altura em que precisava, hoje era o dia. Missão cumprida. Segue-se o arrumar do material, pegar no saco do meu lixo (beatas, restos de fio cortado, o que sobrou das sardinhas escaladas, etc) e aquele que fui apanhando, e que apanhei no caminho até ao carro.
Como as pessoas conseguem ser tão porcas e tão preguiçosas!
Segue-se o fim da etapa, aquela brutal subida carregado com o peso de mais um grade e já com a actividade praticada durante a jornada. Não é fácil, mas bem disposto como ia faz-se bem.
Antes de partir de regresso á normalidade, um último olhar sobre aquela magnífica paisagem que como hoje já me deu grades, mas também já deu belas alegrias. Não é um adeus, é um até já...
Material utilizado
Cana: Vega Yakuza 4.20 híbrida
Carreto: Daiwa emblem surf 35 QD type R
Fio: asari kento 0.20, chicote 5m 0.40 mono chinês
Estralhos: Vega antrax flúor 0.30 e mono 0.40 chinês
Anzóis: gamakatsu f314 nº 4 e 2/0