quarta-feira, 27 de maio de 2020

pesca aos carapaus - artigo de opinião

Dias maiores, mais quentes, mares mais calmos, noites agradáveis que convidam mesmo a sair de casa. Eis que com o aproximar do verão chega também a "época" do carapau. Altura em que o número de pescadores lúdicos na nossa costa cresce quase ao ritmo da chegada de turistas ao país. Nestes meses começamos a ver aquele que não é o típico pescador, é aquele que pega nada canas quase só nesta altura de frenesim.

É uma pesca rápida, viciante, de pouca logística que proporciona belas jornadas nocturnas de ferragens rápidas, umas atrás das outras, e quase sempre com peixinho para o almoço. 

Espécie muito apreciada no nosso país, é vulgar fazer-se acompanhar de cardumes de cavalas e (as tão indesejadas por muitos) bogas. Com altura da bóia ao anzol muito reduzida é frequente também capturar peixe agulha. E que alegria que dá quando um destes nos ferra o anzol, com aqueles característicos saltos para fora de água, bastante combativos e de um sabor espectacular quando fritos. Mas a espécie que se vai abordar hoje é o carapau, e a ele vamos voltar. 

As duas sub-espécies mais comuns de capturar são o carapau manteiga ou branco e o negrão, sendo para mim, o primeiro de melhor sabor. Quando vejo aquele dorso com um tom suave dourado é uma festa. Não que o negrão não seja bom. Não, antes pelo contrário. Mas não me aguça tanto o paladar, não é tão saboroso. 
em cima: carapau manteiga ou branco; em baixo: carapau negrão

Por toda a nossa costa é possível encontrar um bom pesqueiro para o carapau, desde que cumpra aqueles "requisitos" para uma noitada dedicada a eles. Claro que há aqueles pesqueiros preferenciais, que toda a gente conhece e acabam por ter grandes ajuntamentos... Noites quentes, em que as águas também sofrem um muito ligeiro aumento da temperatura, águas calmas e pouco vento. Pessoalmente sou adepto das noites de lua para estas jornadas. 

Material: cana de 5m (ou 6 consoante o pesqueiro) de acção de ponta, bóias tipo caneta ou o mais hidrodinâmicas possível, leves (2 a 8grs e sempre o mais leve que o mar permita), fios finos (0.20 para baixo) e sem necessidade de estralhos em flúorcarbono. Anzóis nº6 ou 8 finos tipo agulha, preferencialmente prateados, nos quais se pode juntar uma missanga fluorescente para ajudar na atracção. 

exemplo de tipo de bóia que gosto de usar

Iscos: pequenos beliscos de sardinha ou cavala, camarão (raramente uso por achar um gasto desnecessário), peito de frango cru. 
Adicionalmente pode-se engodar o pesqueiro com alguma frequência, devendo o engodo ser á base de sardinha moída e bastante diluído afim de os fazer abeirar, e tentar reduzir que traga aquelas espécies menos nobres que muitos pescadores não gostam/pretendem capturar: bogas, cavalas e tainhas. 

A montagem é simples. Bóia de correr ou fixa, com um Starlight no lugar do fixador, fio 0.14/0.16/0.18 no estralho (caso não esteja a pescar directo por ter um fio muito grosso como madre), 1 anzol que pode levar uma missanga fluorescente ou não. 

Em alternativa, pode-se substituir o estralho de anzol único por um sakibi (montagem de 6 anzóis específica de pesca ao carapau, muito usada em embarcada com acessórios brilhantes dispensando o isco) de 2 ou 3 anzóis respeitando o limite da lei. Pessoalmente não sou fã desta montagem! Já em embarcada é muito fácil aquilo formar um emaranhado de linhas e peixe, que após retirado é lixo e tem de se montar um novo. Torna-se dispendioso, pouco prático, e tempo perdido de pesca efectiva. São opções. 
Pode-se também usar mini casting jigs de 5, 8 ou 10grs e corricar com eles. É uma técnica muito engraçada e que dá em capturas de outras espécies, tal como cavalas, tainhas, peixe agulha e até pequenos robalos. 

um dos muitos modelos de Sabiki que existem no mercado
mini casting jigs de 10grs, fantásticos

É uma das pescas que caracteriza a época de verão, que como tudo na vida, tem de bom e de mau. A par das boas noites de carapauzada para encher a barriga, vêm os pesqueiros á pinha, o lixo deixado nos locais e muitas vezes, as espécies indesejadas deixadas a apodrecer a céu aberto. Tudo isto junto cria um cheiro nauseabundo e de certa forma um perigo de saúde pública. Não é comum a todos, claro, e há pescadores menos respeitadores dos seus pares e da natureza o ano inteiro. Mas isto ganha contornos muito acentuados na época do carapau! Os pescadores que só pescam nesta época do ano, acabo de certa forma por comparar aos motoqueiros que só pegam na mota em dias de sol... Não têm aquele hábito, aquela comunhão e respeito para com o ambiente e tudo o que envolve aqueles momentos fugazes em que se abraça a prática, para compreenderem ou sequer pensarem nos efeitos que isso trará. Não sabem viver o momento senão quando tudo lhes é confortavelmente favorável! 
Vamos mudar esse comportamento. Desfrutemos do mar e de tudo o que ele nos oferece, dando em troca nada mais e mais simples do que simplesmente o respeitar.

Bons lances

domingo, 24 de maio de 2020

Dia de rainhas com o mano

O plano era simples. Sair de manhã cedo, pegar no mano para a sua estreia e ir em busca de um dia bem passado. Com previsões de muito vento e mar demasiado grande para investir nas zonas habituais, tínhamos uma aberta na margem sul. 
8 da manhã estávamos a pôr-nos ao caminho em direcção ao barreiro para irmos apanhar algum isco. Chegámos ainda com a maré a vazar, e em pouco tempo já tínhamos um molhinho de lingueirão fresco e alguns caranguejos para juntar às sardinhas congeladas que já trazia de casa. Era hora de partir para a jornada.

Chegada a Setúbal, toca a procurar um espaço para nós. Tudo cheio! O confinamento atrasou a época do choco, um dia bom e estava tudo ao eging. Lá conseguimos um espaço para montar as canas e toca a trabalhar. 
Uma com iscadas generosas de lombos de sardinha, outra com caranguejo inteiro a ver se alguma dourada gulosa nos brindava a jornada. Em pouco tempo tínhamos os primeiros sinais de actividade, na sardinha. Pequenos toques e de repente, pumba, uma grande cabeçada, ponteira toda vergada e com uma luta espectacular o primeiro peixe do dia. Uma rainha de bom tamanho 

Com a maré a encher a actividade ia-se fazendo sentir em intervalos pequenos, sempre na sardinha. A cana com caranguejo nem mexia. Não fossem as ocasionais rajadas de vento a fazer balançar um pouco, e seria como algum adereço da paisagem. Vou verificar a iscada e...

Fossem douradas ou pequenos alcorrazes, por diversas vezes fosse caranguejo inteiro ou lingueirão, o anzol vinha limpo ou com a iscada desfeita e de forma imperceptível. Apesar de estar com multi filamento no carreto, o estralho de 1.5m e a posição semi deitada da cana a que o local obrigava não ajudava a conseguir detectar qualquer toque que me levasse a desconfiar que lá andavam a comer de faca e garfo. 

Entretanto o mano tira uma segunda rainha, do porte da primeira. Todo animado, o bichinho da pesca ia-se entranhando e tomando conta dele. Com o aproximar do final da enchente a actividade foi cessando, sendo cada vez mais espaçados os ataques a ambos os iscos. Pelo meio ainda se perderam alguns peixes por literalmente cortarem o estralho. Embuchavam o isco de tal forma que mesmo com um gamakatsu f314 2/0 o fio ia roçando naqueles dentes até partir.
O calor apertava em força, o vento ainda que suave com rajadas fracas era quente, a ausência de uma sombra tornava a permanência ali custosa. Começámos a notar que tínhamos um belo escaldão nas zonas descobertas do corpo. Começo a pensar em ir embora, mais um ataque e ferragem. Novamente uma boa luta, e outra rainha a seco, esta mais pequena, ainda assim com tamanho suficiente para vir para casa. Sendo assim, ficamos mais um pouco. O mano não queria sair a custo nenhum, estava mesmo a desfrutar do dia ainda que com a actividade mais parada. Meia horita depois, vou para começar a arrumar as canas e eis que nova ferragem! Outra rainha de porte semelhante á última 😅 maré já cheia. 

Entre fome e calor, começamos a arrumar o material e era hora de regressar. Demos por findado o dia, com algum peixe para fazer no forno e comer em família, e a vontade de um regresso. Foi a primeira vez que capturei esta espécie, portanto desconheço se em termos gastronómicos é bom ou não, mas em questão de luta na ponta da linha vale sem dúvida. São muito combativas e proporcionam uns bons minutos de adrenalina. O caranguejo e o lingueirão foram devolvidos á água, não seriam gastom em tempo útil e não havia necessidade de matar. Só porque sim, não. Preservar e manter. 


Um dia a recordar, não tanto pelo peixe, mas pelos momentos passados com o meu irmão 👌


Material utilizado: 

Canas: Vega Yakuza 4.20 híbrida 
              Katx inspiria 4.20 híbrida
Carretos: Shimano ultegra 3500 xsd competicion com trabuco XPS longcast fluo 0.20, chicote 0.40 chinês
                 Daiwa emblem surf 35 QD type R com multi sufix 132 0.18 
Estralhos: Vega antrax 0.30
Anzóis: gamakatsu F314 nº 4 e 2/0
Isco: Sardinha congelada, caranguejo verde e lingueirão

sexta-feira, 8 de maio de 2020

desfrutar é prazer - surfcasting

Já tinha tirado umas sardinhas do congelador com ideias de usar no fim de semana. Com a impossibilidade de ir fazer a noite, e um fim de semana ocupado e com mar de levante, pela manhã decido logo de que ia fazer uma perninha de tarde. Gosto mais de pescar á noite, mas antes de dia que não pescar. A seguir ao almoço, pego no material e sigo para um dos locais habituais. Sozinho, calmante e sem paragens. Em tempo de pandemia há que as evitar se possível.

Chegado ao estacionamento a primeira coisa a fazer é cheirar aquele ar salino á medida que avalio o local cá do alto. Estava a entrar na última hora da enchente, manso com pouca vaga e uma boa cor a fugir para o azulado. Céu bastante nublado sem vento. Temperatura agradável, nada de muito quente. Cá do alto consigo localizar um pequeno fundão, algo longe para os lançamentos, mas já tinha o meu ponto de referência entre aquelas 2 lajes. Era ali que iria montar a "tenda". 

Material às costas e toca a fazer a descida. Cá em baixo confirmo o meu receio. Muita areia nova. Algo frequente nestas praias, que mudam constantemente e de forma considerável de um dia para o outro. Não se avizinhava tarefa fácil encontrar o local certo para colocar a pesca. A ausência de fundões e coroas não era bom presságio. Só faltava haver o mais temível dos inimigos do pescador, aquele que só damos por ele depois de estarmos no pesqueiro, com fé de uma boa jornada em que todas as previsões se mostram alinhadas para isso: o limo. Felizmente não estava lá. 
Lá me fixei entre os pontos que tinha identificado mas o local a apontar era às cegas. Iscadas generosas de lombos de sardinha, e segue-se o ritual da espera. Sentar na areia, esticar as pernas, o som das ondas a entrar pelo tímpano dentro como que uma sinfonia que nos aquece a alma e derrete o coração. A brisa salina a percorrer a face aquecida pelos raios de sol que iam espreitando por entre as nuvens. Dali a pouco já suo com calor. Vim preparado para um tempo mais fresco, e afinal dou de caras com as nuvens a serem lentamente empurradas por um vento que não se sente cá em baixo, e o sol a mostrar a sua força sem interrupções que lhe desgastam no seu percurso até á areia. Como um dos cinzentão se tornou num comum dia de verão, não fosse estarmos na primavera, e a água estar a uma temperatura espectacular para uns mergulhos. Mas vim pescar. 
(o céu á chegada)
(o dia que se pôs)

Na escoa já de si forte, ainda tinha um declive acentuado, o que ia tornar interessante se se desse o caso de ferrar um bom exemplar. Sem toques, ia vendo regularmente o isco, alterando comprimentos e diâmetros. Não gosto da pesca estática. Se não há actividade ou o peixe não está lá, ou estou a fazer algo mal. Esta eu posso fazer algo para mudar. No virar da maré começo a ver pequenas picadas na ponteira. Aguardo aquele momento em que a ponteira verga e começa o combate. Não acontece! O isco vem ratado, será miudeza que lá anda. Troco para um anzol maior, iscada maior e bota para dentro. 
O tempo foi passando, nada se passava, vou dar uma caminhada pelo areal, não para muito longe e sempre levando o olho á cana. Entre plásticos e lixo que retiro da beira mar, encontro um pião novinho. 
Volto á cana, recolho para verificar o isco e ali se mantém. Já nem ratado vem. Continuo ali por pouco mais de 1 hora, até ir embora. 
Entre a última da vazante e as 2 primeiras da enchente nada se passou. Nada que não é nada. 
Passou-se uma bela tarde em sintonia com a natureza, apreciei algo do mais belo que se pode apreciar e limpei a cabeça. Se havia altura em que precisava, hoje era o dia. Missão cumprida. Segue-se o arrumar do material, pegar no saco do meu lixo (beatas, restos de fio cortado, o que sobrou das sardinhas escaladas, etc) e aquele que fui apanhando, e que apanhei no caminho até ao carro. 
Como as pessoas conseguem ser tão porcas e tão preguiçosas! 
Segue-se o fim da etapa, aquela brutal subida carregado com o peso de mais um grade e já com a actividade praticada durante a jornada. Não é fácil, mas bem disposto como ia faz-se bem. 

Antes de partir de regresso á normalidade, um último olhar sobre aquela magnífica paisagem que como hoje já me deu grades, mas também já deu belas alegrias. Não é um adeus, é um até já...


Material utilizado

Cana: Vega Yakuza 4.20 híbrida
Carreto: Daiwa emblem surf 35 QD type R
Fio: asari kento 0.20, chicote 5m 0.40 mono chinês
Estralhos: Vega antrax flúor 0.30 e mono 0.40 chinês
Anzóis: gamakatsu f314 nº 4 e 2/0

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A primeira pós quarentena - spinning


O tão aguardado momento chegou, poder voltar a pescar após aquele tão difícil momento de estado de emergência que nos colocou a todos em confinamento. Preferi não ir logo na corrida inicial da primeira noite, a semana fazia prever uns dias de bom tempo e mar para ir fazer o gosto ao dedo. Optei por tentar a sorte no spinning, fazer a estreia da mais recente aquisição, Shimano nexave 5000hc. Vinis previamente escolhidos, ainda levei uma westlab macua cor FHC, por ser aquela que mais fé tenho. 
Tinha recebido convite de um companheiro mais experiente, e quando se está a dar os primeiros passos nada como uma ajuda de quem sabe. Tudo ajuda para perceber e ultrapassar os erros cometidos mais rapidamente. Por volta das 21h era a hora escolhida, o pesqueiro para mim, completamente novo. Já lhe tinha deitado o olho algumas vezes, mas até agora nunca lhe tinha pisado o areal. Era hoje! 

Chegado ao local, a primeira coisa a fazer era voltar a sentir aquele ar carregado de salinidade na cara. Que saudades, que alívio poder desfrutar novamente daquela sensação. A lua não se mostrava tímida por entre nuvens, não. Parecia um candeeiro que iluminava toda a extensão de areal, quase confundido como que a claridade ainda eram resquícios dos últimos raios de sol. O mar de vaga pequena, mas com força propicia a enchios, tão típico das marés de lua. Vazio, já a virar.
Escolhemos começar numa zona de pedra, com uma grande lage semi coberta de areia. Com algum cuidado dava para colocar as amostras sem grandes prisões, e alimentar a esperança de engatar um daqueles da pedra, tão conhecidos pela luta que dão. 

Começo com um vinil azul 20grs, uns poucos lançamentos e nada. Vou á caixa, opto por um da savage dorso branco e barriga prata com brilhantes, 30grs. Já sentia um pouco melhor sensação. Uma prisão que lá consegui recuperar o vinil. Alguns lançamentos depois sinto um peso bruto na cana. Outra vez preso pensei eu, mas não! Do nada um arranque que me começa a levar linha por ali fora, a adrenalina dispara, recolho com algumas maniveladas e pára. Pergunta o Paulo "então tens peixe ou tá preso?", e eu "vê por ti", ponteira da cana com alguns toques e pára. Novo arranque! Até a cana baixou. Aquele comportamento errático levou a desconfiar o que seria. Pára novamente e tento recolher, não consigo. O carreto revela-se demasiado fraco para o esforço que lhe é pedido. Hora de tentar trabalhar com a cana e tentar que não parta. Novo arranque, fecho o drag todo e a linha continua a sair!!!! Morreu ali a minha esperança de o pôr a seco. Passo a cana para a mão de outro companheiro, mais experiente que eu nestas lides e a trabalhar o peixe com este tipo de material, que fica a observar o comportamento. Pensamos o mesmo, que seria um bom polvo que se agarrou á pedra, e lá se tentava soltar com o seu característico esguicho que o propulsiona. Esteve nisto cerca de 10 minutos até que partiu o multi... 
Refazer nós, nova amostra e continua a procura de um exemplar que faça valer a noite e dê para o almoço de amanhã. Fui percorrendo a extensão da praia em lançamentos e recolhas, vários vinis e a rigida a banhos, mas nem sinal de vida na minha cana nem nas dos outros companheiros. Com o encher da maré veio o limo vermelho, numa simbiose quase que perfeita entre quantidade de água e de limo. Quanto mais ela enchia, mais limo nos castigava o trabalhar das amostras. Ao fim de um par de horas damos por terminada a jornada dada essa condição. Uma temperatura agradável, sem vento, água não muito fria, mas tanta claridade e depois o limo frustraram a jornada. 
Ficou um momento de regresso á muito esperado, a boa companhia e momentos de camaradagem.

Material utilizado:
Cana Ron Thompson steelhead II 20-60
Carreto Shimano nexave 5000hc
Multi Daiwa J braid 8x 0.18 com chicote kally kunan quartz 0.32
Vinis vários